sábado, 20 de junho de 2009
devoto
o ego tinha sido eleito, mas não estava no poder. ele estava inconsciente disso. e um tanto ressentido.
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vicissitudes. já vi de tudo. vide meu passado. é meio enrugado, mas quando molha, olha, incha bem e enche os olhos da criançada. elas gostam de histórias, principalmente aquela do pirata e do palhaço. o pirata tinha dentes de ouro e o palhaço insistia em chamá-lo de "meu cafetão, vem cá". um dia o pirata ficou furioso e enfiou sua perna de pano no olho do palhaço. sangraria pipoca doce, daquela vermelha, do carrinho da porta, do carinho dos pais, do fim do espetáculo, mas como era de plástico o olho do palhaço, fez tóin-póin e já estou de pé meu-cafetão-vem-cá.
o pirata jurava antepassados indígenas e por isso andava com o singelo pinguelo de fora. o palhaço havia lido um livro em outra língua e homenageou o autor com uma pose. o pirata espirrava em sânscrito quando sentia calafrios e nunca jantava sem antes confeccionar seus próprios talheres. o palhaço não via a hora, então se aproximou. achou justo um bocado de coisa, sentenciou a favor de todos e voltou adiante. pensou em humilhar alguém. pensou no pirata. cutucou o único olho bom e colocou o dedo úmido no seu ouvido. achou que deveria ridicularizar seus talheres com alhures. mas não sabia usar essa palavra. pensou em um dicionário, mas achou desprezível qualquer coisa que se proponha a explicar e utilize apenas uma cor. o pirata choraria se não tivesse emprestado seu coração ao papagaio. ele havia se apaixonado por uma pipa e entregou seu coração a ela. mas houve um problema de extradição e seu coração se perdeu em algum lugar entre o convés e um ciumento que não convém contar. se eu aumento a história seus olhos delatam, à direita e à esquerda, o cerne da questão: o palhaço não tinha amigos e o pirata não tinha idéia. o palhaço era extremamente popular e o pirata já preparava sua monografia de mestrado. o papagaio continuava apaixonado, esperando novos ventos bons, novos ventos fortes, novos ventos do norte, que, com sorte, traga sua pipa, e alcance sua rabiola, psiu-gatinha-que-gingado, e a convide pra dançar. a festa no ceú funciona melhor à noite. de dia o sol quer chamar muita atenção e ofusca os outros convidados. o palhaço permanece estático, sem respirar, jurando por todos seus brônquios que vai acabar com a greve, mas antes precisa saber que pose tão digna deve homenagear seu autor mais retumbante nas escala celsius, fahrenheit e aquela sísmica. o pirata sugeriu um esporro ensurdecedor. depois ele voltou atrás e pensou na flutuação. sintomática. flutuação sintomática rizomorfa. flutuação sintomática, rizomorfa de uma forma ovariocélica. o pirata, tenha se visto, não tinha problema com explicações monocromáticas. e podia passar horas xingando os debaixo apenas com elogios que ambos não imaginavam. afinal, não se imagina se não tem. era só pra distair e confundir, o que dava no mesmo. eles precisaram apenas de um trampolim e inventariam outro fim, se as crianças já não estivessem dormindo.
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por que nenhum convite retornava, pensava ele. ele não podia responder a nenhum convite. ele não sabia como encarar aquele que escrevia. ele guardou sua caneta na gaveta e deixou a janela aberta terminar de dar conta nas folhas em branco, em cima da escrivaninha. era um pacto. ele insistia periodicamente. sempre que estivesse em casa. ele escrevia sempre fora de si. jamais tinha entrado. preferia assim, distante, do lado de fora. já havia se acostumado. mas gostava de companhia. escreveu e dessa vez fez questão de enviar pessoalmente. ele recebeu olhos nos olhos e não havia como disfarçar. era espelho demais, nítido demais. um passo pra atrás e um gesto de reverência e preocupação. ele era mono demais em tempos bipolares. raso. muito raso pra todos aqueles depressivos. ele era raso e mono. ele era meio tonto. ele lembrava o nôno. eles eram uno. eles mesmos. eles falavam com eles mesmos. eles respondiam sempre francamente. isso que fez durar a amizade. eles ignoravam suas respectivas correspondências. o outro misturava correspondência comum com as contas pra pagar. jogava tudo fora. o outro recolhia. não reconhecia a grafia. reconhecia a grafia. nos reconheceu: erámos todos ele. pegou no flagra. ali não se podia falar nada que não fosse no flagra. se não flagrasse, por favor, nem insista que não vou lembrar. acenou acima e apontou pros bastidores. vestiu seu chapéu panamá e se dirigiu ao palhaço. o pirata blasfemou em reverência a sua perspicácia. e ria sozinho, coitado, pensando que tinha pegado pesado com o moço do charuto. seus dentes de ouro reluziam e já se podia obervar o capuz escuro e brilhante do céu. diziam que o sol viraria abóbora e portanto nunca ficava até tarde. a lua iluminava todas as instâncias. quando seus pensamentos enfim, fez quase e entretanto.
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era um rapaz tímido, do interior. tinha um modo próprio de pular fogueiras. era devoto de uma porção de santos. nem por isso deixava de se queimar. sonhava com a quadrilha e com a paçoca.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
É a mesma dança
Extrovertido, rio de suas piadas sem graças tapinha nas costas promessas de visitas no fim-de-semana e por que não um churrasco que nunca acontecerá no feriado. Enquanto gesticulo e aumento uma história, que talvez nem tenha acontecido comigo, por dentro, manipulo um plano, infalível, meu amigo, infalível de combustão-instantânea movida a tédio. A qualquer momento, entre a soberba alheia-acima, e o sol diário, e único, dos monitores, uma flama, ardor elementar, amarelo, vermelho, laranja e azul caso seja gás de cozinha, ao som da harpa de Nero, cabum! incêndio, bombeiros corajosos, pessoas gritando, saltos quebrados, apressados primeiro, escada escura e esfumaçada. Saída de emergência.
O telefone toca e é a hora do café. Amargo-delícia. Um brinde. A moça do andar de cima ainda não sabe meu nome. Talvez por eu não saber o nome dela. No fundo, não sei o nome de ninguém. Através de apelidos pejorativos habituamo-nos ao normal, comedido e conformado. À prancheta retangular, à carteira linear, à esquerda ao direito com ponto final. Às linhas. À fila. Em pé e de calça. Assim por diante. Adiante uma ilusão, sempre adiante-radiante. Com direito a jingles e garotos-propaganda.
Aleijado e promíscuo, minhas chances devem ser poucas. Se os olhos são a janela da alma, fechados posso ter um momento de privacidade com ela. A alma desce de cima pra baixo e ao redor. Está na mente. Em algum aparato metafísico ou metalingüístico. Meto acentos e pontuações antiquadas: não serão eles que prescrevem o que eu penso prescrever.
O sapato ainda é o superego da civilização: límpido e correto por fora, aparenta o reflexo do que se aproxima. Por dentro contrai nossas pulsões vitais, impede o gozo do frescor e relaxamento, permite acesso a tribunais, barbearias e lugares em que devemos nos comportar. Crianças, sempre sábias, não usam sapatos.
Atento a todos os hífens e tremas. Atento aos acentos. Negligenciado crases. Estático, com todas sua paroxitoneidade, me proponho imóvel e fugidio. Meu olhar mira e escapa: é a alma tentando sair. O objeto continua parado, mesmo que a física jure movimento. Cética, a ciência peca. Meu confessionário é um disco de setenta e oito rotações. Meu testamento é em fá sustenido. Meu testemunho é somente minha sombra. Meu perfil-breu-infalível.
O amor é volátil e precisamente por isso deve ser extravasado. Existe quando se esvai, não se guarda em porções ou tapeware. Contempla-se e divide-se, como flores orientais. Amor, de verdade, só existe se declarado, calado jamais. Senão é só angústia. E daquelas que dá pedra nos rins. Cócegas tristes.
Quieto, sentado e disfarçado de reboco, as chances dele também devem ser poucas.
Um poeta desfolha bandeira e, ansiosos, esperamos pela manhã mais tropical de todas.
domingo, 12 de abril de 2009
Peréia
sábado, 28 de fevereiro de 2009
reverência
"Mas que importa isso a mim e a ti! Outros pássaros voarão mais longe!"
Demasiado humano. Erguia sua mão para o alto e aquilo sim era uma reverência, uma manifestação legítima, dessa vez, relíquia. Não poderia dizer daonde vinha aquilo que o impulsionava, mas sabia que por ali, naquele engradado se havia de encontrar os românticos. De todas as espécies. Inclusive os pássaros. Principalmente os pássaros.
Seu braço erguido era uma reverência. A repetição era anulada em pensamento. Por um breve momento, aquela sensação constante se torna plena e se eleva: pausa. Primeiridade é pura. O momento é do silêncio, ele é quem vai falar. Atônitos, todos se observam e anseiam. Como sempre, como usualmente se observavam e se ansiavam. Mas nesse timbre agudo e mudo do silêncio, nunca-jamais. A aflição do detalhe. Ponto. A volta do surdo, marcando os compassos, é retumbante. Equilíbrio e ritmo. O suspiro de alívio e a comoção gera prazer. É tudo marcado e constante. Adiante. É tudo aplanado e perene. Pra sempre. É só o momento, o instante. Amante. É só um surdo marcado. Pesado.
Um Livro para Espítiros Livres
Ele jamais poderia acompanhar. Mas o outro sim era um cântico de alegria. O do braço erguido. Punho firme e celeste. Entre cometas e passarinhos, se dispunha erigido e falante. Era um cantador. E possivelmente todos éramos naquele engradado. Ainda somos. Mesmo fora. O engrado foi apenas uma tentativa metafísica do sujeito. Só funcionaria como um engrado pagão. Senão, não.
Ele fez um poema, guardaremos para um outro momento. Poemas são atemporais, de um maneira interessantemente instantânea.
Eis o Homem. Ele só acreditava na autenticidade de um pensamento que nos motivasse a dançar. Foi o Oswaldo que retirou dos meus pensamentos os códigos pra lá de adequados. Apenas isso, não conheço eles. Nem suponho conhecer. Perceber, sim, é um princípio levado adiante. Elevado adiante. Pássaros nas proximidades.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
calvo
momento solene. um gesto do maestro e me proponho sem dúvida a começar. esta eu sei de cor. estou careca de saber. respiro fundo e ando mais calvo agora. toco sempre igual.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
itinerário
sempre à espreita existe uma certa quantidade de realidade. mas tem que se esforçar. tem que jurar que aquilo que você vê em superfícies que não pertencem às três dimensões não são reais. o que é imagem colorida, impressa ou representada por milhares de pixels, filho meu, não é real. real mesmo é aquilo do lado de fora do ônibus. infelizmente. igonorar o real é justo e legítimo. até apelando pra entorpecentes. mas daí tem aquele problema da falta de criatividade. mais interessante são as figuras de linguagem. é como xadrez, só que mais rico que o preto e branco. quem sabe usar se diverte muito. quem não domina as técnicas de montagem e desmanche de aliterações, rimas, pleonasmos e coisas que produzem um efeito literário engraçado, pra ficar no adjetivo mais simplório (a Macabéa era engraçada), fica só a admirar. o que já é bom. admirar é uma atividade que faz um bem pros olhos. às vezes tem que admirar de olhos fechados de tão bem que faz pra vista. jogar xadrez, compôr com figuras de linguagem e perceber a realidade pra fora do ônibus também são artes. não necessariamente de emancipação. mesmo que pessoas talentosas e esforçadas consigam ajustar os dois lados imprescindíveis. vou voltar ao plausível, palco de Pasárgadas íntimas e exclusivas, solicitações de devaneios e desvios de conduta daquilo que se espera, saúde mental mesmo. o ônibus ainda não me surpreende. continua passando todos os dias. mas tem algo ali fora que ainda vale a atenção. somos nós parados esperando. ao nosso lado, nós dois. poderíamos estar conversando e trocando informações precisas de nada que vá valer alguma coisa no mercado ou na aquisição de qualquer coisa. mais cedo ou mais tarde a gente deve ficar sabendo pra onde vai esse ônibus. eu só conheço o ponto que eu desço. a gente sempre repara nas pessoas que sobem e muito pouco nas que descem. e dou o sinal e o motorista me ignora. ignição. sento resignado. abro o jornal e tenho certeza que o mundo está de brincadeira comigo. ainda dá tempo de voltar àquela praia e construir aquelas coisas. mesmo de areia, mesmo que o mar acabe com tudo no dia seguinte. existe alguma coisa de valioso naqueles instantes que fazem tudo isso (e quando me refiro a "tudo isso" não se espante com metáforas desavergonhadas, porque de fato, não sei ao certo do que se trata tudo isso, está a aberto a interpretações, vis e pueris, de preferência) valer a pena. ainda dá tempo, o mais curioso e pode até ser triste, mesmo afastando de cara a tristeza, e é essa sempre a intenção, mesmo que mal-sucedida (o que seria da experiência da vida se não fosse nossas opções mal-sucedidas?), a idéia é que ainda dá tempo. o garfo do almoço de ontem funcionou como diapazão. o lá não estava lá então afinei de ré. a viola é velha e ainda faz comida boa. a música alimenta e emancipa se tocada de coração (foi um passarinho pra lá de esperto que me contou). liguei avisando que hoje estava doente.
domingo, 17 de agosto de 2008
monólogo
bege é uma cor que, de tão triste às vezes é suicida. portanto, deve sempre estar acompanhada de cores sóbrias e equilibradas. não queremos cromocídios. mas cores alegres destoam, e por isso irritam o bege, coitado. o bege sempre deve estar acompanhado, sempre. na essência ainda sou o mesmo, apenas me tornei mais tolerante à vida e todos os seus aspectos repressores e conformistas. fiz um samba-canção. nada rimava com nada. era profundo demais e utilizava metáforas que só eu entendia. ninguém gostou. por isso nem eu. nem nós. fadado a solar na escala de um dó sustenido, sempre amparado por retóricas fáceis, de chassi de caminhão. o medo maior era o branco. o ideal era o argumento sincopado. a cor sincopada. elas eram todas plenas, até as secundárias. precisava de alguma mancha. e escutá-la. minha primeira experiência Gestalt foi à base de molho de tomate. interpretei "descoordenado". não ressoava e isso que me deixava intranqüilo.
- ressoa!
foi em vão. os pássaros riam. e iam. o rio que havia ali foi aterrado. genial. se ainda houvesse o rio, poderia escutar o som do azul. mas dessa vez do azul doce do rio. riam. e assim se foi. em silêncio. o burburinho se esconde por trás de algum lugar da posição cromática. eles não me enganam e eu espero que eles saibam disso. minha filosofia é focada demais, não presta. abandonei a semiologia. me dizia muita coisa, mas de modo muito monocromático. vou voltar para o meu sertão. lá pra minha tribo que ainda me espera. pequeno pássaro azul. um ideograma de urucum que explica. e ressoa. alto demais. só os pássaros conseguem compreender porque são os únicos a voar tão alto. tão alto quanto o ressoar da minha vestimenta à base de urucum. a cor é uma vestimenta. o som é uma armadura. a poesia é letal, meu filho. uso-a com cuidado. vermelho. vermelha. o azul é sempre o mesmo. o gênero da cor só importa quando altera a gravidade do timbre. o azul é profundo e talvez seja por isso que passo a persegui-lo. tão profundo quando meu samba-canção. tão profundo que às vezes fica melancólico e triste. daí mantenho o bege à distância, só por precaução. detesto mortes trágicas. de rios e cores. daí sobra o cinza. sobre cinza. e estacionamentos. uma dialética entre o horizontal e o vertical. prédios espelhados, altos e completamente desnecessários. estacionamentos abaixo preservam aquilo que nos deteriora. asseguram que nenhuma planta passe por perto. começaram pelos rios, passaram às árvores. mais cedo ou mais tarde chegarão na gente. por isso que eu volto e componho músicas sem graça. a falta de talento não me desestimula. o que me desestimula mesmo é o prazo. e farto de todos os bilhetinhos corporativos de três dígitos que recaem sobre minha caixa postal mensalmente. faço da minha tralha (minha rede, minha malha, da boa), talher e toalha, uma trouxa, por eu que não sou besta de ficar aqui à toa.
com o dedo indicador eriçado junto ao nariz, ameacei e fiz uma promessa que já esqueci. o que pertence ao devir deve ser, momentaneamente, negligenciado. o arco-íris foi patenteado, e agora tudo que for colorido demais corre o risco de ser confundido com uma alegria que talvez não seja bem essa que você gostaria de transmitir. por isso o som. alto. autos, não. são barulhentos, poluidores. buzina atrapalha os namorados da frente, enfarta passarinhos e ofendem mães alheias. buzina é um rosa-choque saturado na retina de uma criança. crianças, pelo menos elas, deveriam ser poupadas. os passarinhos também. E todas as plantas. idiólatra, o ser humano moderno não perde esse hábito. algo me diz que o perigo dessa passagem ser irrelevante recai mais sobre o monótono da cor do que o monólogo do discurso.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Sintoma
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Livro.
Idéias são o suficiente. Idealismos atrapalham. Nunca tive idéia suficiente para escrever um livro. Livros são repletos de idéias. Idéias sempre são suficientes. E livros podem ser idealistas e sempre perigosos. E tudo que corre risco. Para tudo que foge do alcance. Livros são disponíveis e inalcançáveis. Idéias são inalcançáveis, intocáveis e insuportáveis. Idéias não são presas nem esquecidas. Idéias também são perigosas e são livros e são engraçadas. Nunca tive idéia do que escrever num livro. Idéias suficientes. Nunca fiz idéia de todas elas. Livros são idéias bem pesadas. Livros são idéias suscetíveis à gravidade. Não há gravidade que não seja reclamada num livro. Idéias incabíveis e prolixas pertencem ao universo dos livros densos e simples. Idéias incríveis e livros pretensiosos. Livros são estruturas maciças e ficam estabilizados na estante. Nada se mantém estável com livros por perto. Cobertos de razão e improbidades. Nem as idéias, nem os livros. Nem nada. Muito menos niilismos. Li tudo isso num livro.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
todos
não sou mais um velho. e nem mais tempo temos. nem ter porque querer. nem desejar, nem dever. nem dever nada à ninguém. apenas aplausos e agradecimentos. os amigos que se vão e a todos aqueles que sempre estarão por perto, por bem ou por mal. pelo sim e pelo não. pela dúvida. pelo privilégio da hesitação. ode à homenagem. ode ao bom gosto e a tudo que só de se presenciar já faz bem. perto daqueles. longe de tantas. ah, meus amores. meus filhos minha vida meus deuses que sempre me acompanharam. meus eus, todos eles, meus erros, meus acertos. seus acertos e seus erros também. a eles. pra todos os meus bens, por todas as valsas e todas elas com seus lindos vestidos. elas sabiam o que estavam fazendo. elas sempre sabiam! como eu não pude perceber... elas sempre sabiam. e se enganam todos aqueles - e tudo isso, veja bem, são pra todos eles - que sempre pensaram que iriam derrapar, e desviar, e desarticular na hora principal. pela mancada pelo deslize. pelo não-atrito e tudo que cai. pela benção da gravidade. precisamente nesta hora. precisamente e necessariamente e todos os vocábulos de posse e de perda, e de estímulo à dimensão. pelos hieróglifos, pelas desenhos infantis. inclusive os da tv. por todos os rabiscos. pelas beiradas. pela impressão passageira e pela constatação. pelo eterno retorno. cada punhalada, ora só, tal dramatismo, cada ponta pé, preciso e denso, naquele instante. cada toque em cada tecla, cada letra escrita e cada sentimento direcionado e redirecionado. sempre precisamente esparso. sempre. a todos aqueles. ao exercício da dedicação. ao ode eterno. jamais aquilo apenas. são pra elas. são para os pequenos também. toda benção, todas as condições pressupostas às pulsões positivas, e tudo aquilo que emancipa. todas as histórias sem moral alguma, tudo que é ininteligível. pelas rimas mal-formuladas quem sabe. inclusive aquelas. àquelas. àquelas. à todas elas, meu bem. abusando da crase de forma completamente equivocada. pelo talvez. pelo meio e pelo modo. pela forma e a apreciação. ao uso indiscriminado de todas as acentuações. ao suprimento de todas as expectativas. também se trata disso. à todas frustrações, elas são bem-vindas quando evitam megalomaníacos. a mentira é uma verdade megalomaníaca. às duas. aos dois. ambos e todos. como o sucesso periódico e o reconhecimento e o agradecimento e a pausa. a tudo aquilo que indique vida e que indique morte e que indica a mesma coisa num mesmo tom. aos desafinados, com certeza, e a pujança de atitudes levianas. a todos os levianos e levianas. ao desapego do gênero, a todos os tratados antigos e conspirações futuras. constantemente atento às conspirações. e por favor, me prometa, obcecadamente distraído. obcecadamente. e sempre, a todas e todas, redundantemente, publicamente vinculado com a repetição, com a permissão materna de todos os equívocos, que todos sabem, servem pra educar. e educar serve pra evoluir. e a todos os mestres que já tivemos e que teremos. e a todos os músicos de todas as glebas. e todas as repartições públicas e elementos privados. às minúsculas. a todas as propostas inúteis. a todos os fins-de-semanas desencontrados. ao orgulho retumbante no passado. à lembrança. à homenagem. à humildade. a todas as lágrimas que caíram e cairão, por todos os momentos que ainda vamos passar juntos, aos desejos intentos desígnios desenhos e sonhos, de dia de noite, a todos. pra sempre. mesmo que seja apenas nesse instante.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
sinusite
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Festa Junina
junino é um menino festeiro. rojões assustam os cachorros. a fogueira esquenta e afugenta os maus espíritos. queimou o meu amor. meu bigode é ralo mas apropriado. minha bota rota é suja na sola.
meu remendo colorido, lembra Volpi no céu. meu dente preto representa ausência e não feijão.
o caipira, sua moda de viola, o gênero musical mais existencialista. a vida no campo, sozinho, rodeado de vida. pensativo, contempla e canta. a vida no campo, remendo no bolso, caldinho de feijão. feijão tropeiro, arroz carreteiro. chapéu de palha e boa educação:
- dia!
- dia, cumpadi.
a paçoca é a coisa mais linda que existe. quadrada, rolha, espatifada, despedaçada. doce. o balão vai subindo. o pé-de-moleque... o amendoim é a matriz da felicidade. tem o milho. o milharal. a pamonha. tem os cavalos, e a cavalgada. as moças tão bonitas, são cortejadas. eu cortejo todas elas. engasgo com a paçoca. às vezes quando como rápido.
o caipira tem uma filosofia que é a base de suspiro. suspiro e contemplação. tem a fogueira. a gente pula. tem a ciranda. tem os amigos e o bilhetinho do amor.
angu. broa. quentão. tem o povo na praça central. conversa fiada. fiada e gostosa.
o sotaque é um deleite. doce de leite. Chico Bento.
toda cortesia é por conta da casa. referência aos santos. ao sacro. referência a Nossa Senhora de Aparecida. minha Nossa Senhora rogai por todos nós, amém. tem as romarias. a procissão.
junino é um menino esperto e festeiro. pula fogueira e solta balão. as bandeirinhas coloridas são fáceis de fazer e presas em barbante.
cultura do dengo.
e mais um punhado de não sei-mais-o-quê.
a roça é plena de tudo aquilo que um faz um bem danado.
a comida. as pessoas. a música.
retiro meu chapéu no instante em que elas passam.
sorrio, cumprimento.
meu cavalo se chama Pangaré. gosto tanto dele que não chego nem a montar no bicho. mas ando ao seu lado, em pé. e levo pra tudo quanto é canto.
a gente pesca e confere o pôr-do-sol. todo dia, pra ter certeza que as coisas são o que são e existirão do modo que devem ser. estar é um ser momentâneo que a gente gosta de perpetuar.
se está bem, está bom.
o Pangaré dorme de pé, nem precisa deitar.
bicho esperto demais.
o caipira é muito romântico. é congênito. oriundo de tudo aquilo que faz muitos sentido. sentido é de sentir. sou devoto de todos os caipiras.
Seu Antônio, Seu Pedro. ô Seu João. obrigado por tudo.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
viva!
meu amor
eu te amo
eu te amo
mais
até que
aquele biscoito de goiaba enroladinho
na embalagem antiga e vermelha
que vende no supermercado
meu amor passional é constante mas displicente e disperso.
amo de tudo um pouco, amo até dormir dormindo.
te amo e rimo
sem graça
na marra
amasso
e passo
adiante
adiante só tem você
ui!
hahaha
te amo mesmo, é sério
tudo que tenho é o amor
escondido e tímido
mas dá uma chancezinha pra ele
explode
bum!
caio duro no chão
ligo para os meus pais chamarem uma ambulância
não sem antes perguntar quanto foi o jogo do Corinthians
isso sim vai ser decisivo na minha recuperação
sou muito sensível
mãe, quer um presente bem bonito?
"vai,
boiadeiro que a tarde já vem
leva o teu gado e vai pensando no teu bem."
dedicado a todos aqueles que acreditam na livre emancipação de rimas, não-rimas, de ficção ou não-ficção, indefinível como a própria estrutura, e assim só, declarar:
hoje (mas pode ser amanhã e o sempre) dia internacional, quiçá universal, dos poetas desenganados, torpes, esquecidos em seus cotidianos chatos quadrados patos pra burro, entediantes porque previsíveis.
ao contrário do meu final.
fim.
aliás, em sua qualidade de voltar atrás, aliás essa é a sua única função, e não importa quantas funções você tenha desde que faça bem. aliás, conheço uma palavra que faz muito bem isso: aliás.
se tum-tum-tum e de repente, plaft, escorregadio e bem lentamente. te acudo. posso? com licença então, pré-escrevo lá no aliás, e espero que tu sigas fiel, meu filho: que se quando rima, então meu amigo, alforria! viva!
aqui me despeço e volto pra casa
aqui me desfaço e volto pra roça
aqui desenrosco e me esqueço na praça
assim, sem graça, desmancho uma poça
preposição: a
cair.
para todos aqueles que ainda.
para tudo. pára um momento, respiração profunda, ao âmago. esquisito.
está muito estranho agora.
atenção. acende, apaga. clap. claro, escuro. clap. acende, apaga. clpa. claro, escuro. clap. claro escuro acende apaga clap claro escuro acende apaga claro clap.
esquece. deixa pra lá.
já vou dormir mesmo.
respira fundo novamente, respirar faz um bem danando quando se está apto para. pronto para. adequadamente preparado para. recombolicamente entusiamado para. todas as formas intransitivas indiretas de ser e estar e qualquer.
e começa tudo de novo, Maria, tudo de novo... a primeira nota maestro: dó. suspender! dominar, reter, soltar, procurar, buscar jamais encontrar, encontrar tudo, agora, voltar jogar pra cima debulhar desenhar deter fustigar mexer amedrontar amealhar nada jamais amealhar tornar novamente o que significa retornar e pensar tudo de novo pensando daquela forma que mede que pesa que analisa que retoma que não satisfaz que jamais quer satisfazer que não vai parar enquanto não olhar e encontrar aquilo e perceber que o todo ao redor redondamente enganado estava eu todo esse tempo e não tenho tempo nem pra me arrepender enquanto penso nisso e aquilo e retomo e quantifico e tiro qualquer saldo e ponho no bolso e me dirijo a.
silêncio.
por favor.
preposição.
agora.
"senhoras e senhores, aos vencedores, todos os meus mais sinceros e retumbantes aplausos."
clap, clap, clap, clap.
ainda há tempo. na manga, sempre. na mente e no coração. tudo que faz bem, se guarda na mente e no coração. e mente pode ser espírito se você quiser. há tempo de rever e revisitar. sempre há tempo de revisitar Lisboa. hmmm-hmmm. (em voz alte de pé. tambores).
Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral! Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna! Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Fernando Pessoa.
sábado, 21 de junho de 2008
banco
- olha, é só cancelar a porra da conta (palavrões são filhos da impaciência com a incompetência), dá um delete aí na bosta da tela...
daí eles te chamam de senhor e pedem por favor pra você aguardar um minuto que eu serei transferido. eles acham que "por favor" e "senhor" são suficientes para qualquer tipo de abuso. "bom dia, senhor, por favor, posso te tratar como um idiota, passar a mão na bunda da sua namorada e dar uma festinha no seu apartamento esse finde? antecipo meu agradecimento pela compreensão." "ah, claro que pode moço, você é tão educado". chega um momento que já não existe argumento pra você não cancelar sua conta, a coisa se torna pessoal. você verifica se ainda possui aquela marreta na garagem e quais são as chances de chegar ileso até a embaixada mais próxima pra pedir asilo político depois de estraçalhar alguma agência do seu banco.
enfim, você é solicitado a pagar algumas dezenas de impostos e juros que vão surgindo na sua conta quando ela resolve fechar, e então você comemora a liberdade. que dura na verdade dois meses, até eles resolverem te mandar novamente um cartão de crédito no seu nome. tomei um negocinho que me fez repensar a idéia de descer, literalmente, goela abaixo do gerente, aquele cartão luminoso, atraente, como meu nome completo e aceitação internacional.
nunca li a Bíblia, mas sei que tem uma passagem que Jesus nega a tentação do Diabo. e pelo que eu me lembro a coisa termina aí. não, obrigado, e o Diabo se retira. banco é pior que o Diabo. não existe 'não' pra eles. só existe: vou angariar lucros exorbitantes cobrando juros mais exorbitantes ainda te ameaçando periodicamente com o Serasa e o SPC.
uma espécie de estelionato sofisticado. sofisticadíssimo. maldito sejam todos os diabos e seus hábitos de estelionatos sofisticados.
árvore peixe ruiva
não sou ateu, mas fui um teocida. matei Ele e enterrei no quintal junto de um peixinho que por infeliz precaução alimentei duas vezes no mesmo dia. será que Ele vai pro céu? agora é minha vez de ser deus. ninguém vai sentir falta Dele. ninguém sente falta de nada. ninguém tem tempo pra sentir falta de qualquer coisa. as pessoas constantemente sentem falta de alguma coisa. as pessoas correm apressadas e compram e comem e correm e reclamam e sonham e voltam a realidade e sujam e desperdiçam e pensam no futuro, que francamente, não existe. não adianta pensar numa coisa se ela não existe. até funciona, mas como exercício da imaginação, menos como prognóstico e perspectiva. o futuro é o constante-não-existível. enquanto não existir e enquanto constante, é o futuro. se o futuro existisse se chamaria presente. e se o presente fosse sinônimo de futuro, as pessoas andariam mais deprimidas. Deus não está morto, está distraído apenas. e se de repente Ele estiver morto, bom, não fui que matei. e se foi, foi sem querer.
árvores são melhores de subir do que brincar de pega-pega. Deus é um pai triste.
fiz um amuleto e saí com ela. depois saí com a outra do cabelo ruivo e bonito. ainda tive tempo de me encontrar com aquela da voz rouca. gracinha. não posso parar. me dei bem e agradeci ao amuleto. garotas bonitas e inteligentes são mais legais que subir em árvore e brincar de deus.
livros fazem você querer sair de casa, jornais não. plantei uma muda no quintal, junto do peixe e de Deus. quero que ela vire uma árvore. não tem absolutamente nada a ver com filhos e livros. tem a ver com árvore, tronco, folhas verdes, flores, passarinhos e assobios.
buzinas me dão sustos. enquanto eu não desço eu me distraio. aqui em cima estou perto de Deus, dos passarinhos e jamais ela me encontrará. daqui de cima vejo ela parada. enquanto isso penso na outra, na ruiva e na rouca. penso numa música e esqueço que está tarde e preciso descer.
adultos não brincam mais de esconde-esconde. adultos brincam de esconde-esconde o tempo todo, mas sem ninguém procurando, pois assim, a brincadeira nunca acabará.
só vou descer pra molhar minha muda no quintal. ainda bem que estou com meu amuleto.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
afagos e salsichas: um buraco
atordoado entre rastejantes e asquerosas onomatopéias ininteligíveis, nosso sujeito, ainda um quase protagonista que dispensa apresentação, ditames e ditados, escapa de mais uma e sobrevive. uma pá. um quintal , um aterro. não pode esquecer do canudinho, claro. como um snork, não a onomatopéia. snork de mergulho. cava, cava, cava. rrrfucutachk fazia cavando e batendo a pá entre as lajotas da beira. sete palmos. hmmmm... mau presságio. cava mais então. rarruf, puf, rarruf, puf, a terra macia caía mais macia em cima da terra já cavada. oito palmos, dez! palmas. e agora, quem vai limpar essa sujeira? hein, capitão, quem vai limpar essa sujeira? o sujeito, agora capitão, necessariamente precisa de um auxiliar.
cachorros são bom auxiliares, obedientes e bonitinhos quando bebês. cachorros sabem enterrar. igual o do filme. enterrar, rebater e salvar o dia. meu tipo de cão. vai lá garotão. au-au, salsichas, e bem, vocês sabem como é fácil fazer o dia de um cão. salsichas e afagos. rabo pra lá, rabo pra cá, rabo pra lá, rabo pra cá. rabo para lá e para cá continuadamente.
o sujeito-capitão-adestrador-de-cachorros, agora enterrado erige (e herege, sempre) seu canudo de contato com o ar. oxigênio. vuuuu, vuuuuu. respiração parcial. cachorros parceiros. espaço sideral. aterro. quintal. buraco fundo. preguiça. sono. noite-dia, dia-noite. escuro. canudo. oxigênio. já passou um bom tempo. tempo suficiente. já passou. cachorro vivo. salsicha. au-au. cachorro cava. cava bem demais. desenterra o capitão! e agora, na inconfundível e contagiante excitação canina, vamos lá garotão, pule, e mexa seu rabinho, e sente, e pule, e finja-se de morto como eu fingi. viu? quem vai ganhar salsichas? quem vai ganhar salsichas? quem vai ganhar salsichas?
eu vou, eu vou.
snork imundo. roupa suja de terra. ninguém vai limpar essa bagunça. totó. totó do capitão. quer mais salsicha? pega, morde e arrasta um tapetão, bem grande, bem persa, bem preso. traz pra cá. muita sujeira debaixo. terra minhoca e um buraco. põe lá e ninguém viu.
qrrrr, qrrrr. esse tapete vai levar horas até chegar aqui. encomenda. faz um. trança. tear, essas coisas. vovó!
- alô, poderia falar com a minha vó? Dona Vovó é o nome dela. enrugado. não lembro, Senhor, já faz uns anos em que ela se foi. sei. era branco e ralinho. sorriso fácil e cansado. isso. não? por que não? quem é o seu superior? deixa eu falar com Ele. alô, Deus? oi. oi Deus, te amo. só isso. esquece minha vó, te amo Deus. amém.
Deus é extremamente persuasivo, extremamente. não é à toa que tem sucursal em todo planeta.
bom totó, esquece o tapete, esquece o buraco, esquece a vovó, o tear e aquele verão de pogobol, frescobol, anzol, bolinha coloridas e apressadas, mar, chuá, sereias e uma aposentadoria fictícia. esquece o chinelo. agora frieiras, botas e o meu título de capitão. por favor, não esqueça do meu título de capitão. titio vai voltar pro buraco.
cava, cava, cava, sploft, skléqueti, tipluf. roinc, pum, bléin.
ok. salsicha. pode enterrar. afago.
snork, oxigênio rarefeito e justo.
hmmm, já poss sentir o cheiro de silêncio.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
sagüi, mão pequenas e ele
ele pára. pensa. se sente culpado e volta a escrever.
ele não confiava em ateus. frios demais. não confiava em que não tinha nenhuma crise existencial de quanto em quanto, conformados demais. e, não sabe bem o porquê, se foi alguma experiência ruim na infância envolvendo o circo e atrações bizarras, mas ela não confiava também em pessoas de mãos pequenas. sagüis estão completamente fora de questão. cachorros sim, fiéis e companheiros. sagüi, meu irmão, se deixar leva até tua esposa.
sagüis estão bem em cima das árvores, cachorros são bons no passeio.
não se sabe o que esperar de sagüis e pessoas de mãos pequenas. nunca se sabe.
ateus, em geral, brigaram com algum pai. simbólico, coisa de psicanalistas. pátria, partido, padre. todos as referências de ordem maior num arquétipo masculino ou algo do gênero, exatamente do gênero. conformados jamais brigaram com o pai. nenhum. nem a mãe, nem o irmão espaçoso, nem nada. não brigam, é uma opção divina. é dádiva, desopila o fígado e te faz querido em ambiente sociais.
sagüis, em geral, são queridos em ambientes sociais. como cachorros bonitos e crianças recém-nascidas. mas até eles começarem a bater carteira, dar um gole na sua cerveja e dar em cima da sua garota. daí eles são expelidos. sagüis são meio macunaíma. por isso desconfie deles. bonobos são macacos gentis e que transam muito. por isso gostamos deles. porque queríamos ser gentis e gostaríamos de transar muito. bonobos resolvem atritos e encalces sabiamente. mas estamos ocupados demais trabalhando e brigando com alguém. chimpanzés freqüentam circos como sagüis e pessoas de mão pequena. chimpanzés são mais violentos. por isso agora gostamos de bonobos. chimpanzés poderiam ser motoristas em grandes metrópoles, sagüis poderiam ser políticos e bonobos poderiam desenvolver uma bonocracia, onde a gentileza e o sexo conciliador resolveria os atritos sociais mais proeminentes. preeminente e proeminente me confundem. sagüis me enganam, e pessoas de mão pequena me deixam desconfiado. como abusos em primeira pessoa pode ser algo patológico, ele pára nesse instante
terça-feira, 10 de junho de 2008
pessoas geniais, incompreensíveis e portanto, fundamentais pra nos preservar na nossa própria ignorância reconfortante
ignorante e contente. um estilo de vida infalível.
poetas e os que escrevem
a impressão que eu tenho é que o poeta vê as palavras em três dimensões. a gente apenas lê. e vê altura e largura. o poeta atravessa. lê altura, largura, diâmetros, dimensões, profundidade, e sente e se intimida, e pesa. e troca elas do lugar. e mexe com seus significados. e troca a gente de lugar também. ele consegue se aproximar do amor, se distanciar do amor ou ficar ao lado dele. o amor pode ser um empecilho ou um apoio. a gente não, a gente só lê amor e torce pra senti-lo. o poeta perpassa pelas palavras, escala as palavras, arrasta elas, engoli e às vezes até rouba algumas. o poeta pode roubar à vontade. às vezes pega uma e outra e forma uma nova. ele derruba, atira, descasca. descasca um monte de palavras. um significado atrás do outro. em escala, em progressão, em matrioskas.
a gente observa atônito. o poeta opera a palavra, construindo, demolindo, cimentando. um tipo raro de acesso. o poeta é transgressor porque olha a autoridade de cima. bem de cima. visto do alto a autoridade parece pequena, ilegível. a gente lê autoridade e respeita autoridade. de cima não dá pra ler autoridade, dá pra ver manchas. e o poeta é meio gestalt. escreve por manchas, ignora elas, inventa novas manchas de semântica. o que fica é inteiramente novo. a justaposição de palavras, justa porque legítima, entoa uma nova possibilidade. é disso que se trata seu poema, uma espécie de fisioterapia na gramática: ela recupera e amplia suas possibilidades. de perto pequeno parece tão grande. o poeta que me contou. eu ainda vejo pequeno. léxico. nexo. lógica. essas o poeta deixou pra trás. projetou-se no inflável, subiu e já avista adiante novas construções. não dá pra acompanhar o poeta. a leitura de cada palavra do texto consome meu tempo. ele lê tudo de uma vez, por impulso, por osmose. e dispensa cedilhas, acentos e acessórios desnecessários. e faz questão de todos eles.
de uma tacada só. numa só pulsão ele extravasa aquilo. e cria.
a poesia é mais que vestígio de um dom, é uma forma autônoma de ser e estar. e aí mora meu ledo engano de não-poeta:
CUIDADO
A poesia não se entrega a quem a define.
foi o Mario Quintana quem disse.
por isso existem os que são poetas e por isso existem os que escrevem. Neruda já dizia que "é tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem razoáveis". resignado, me pinto de verde e me atiro no mato.
